Este mês começou como uma confirmação de algo mais estrutural: não estamos apenas diante de um movimento de mercado, mas de uma mudança de regime. E, como em todo início de ciclo, o ponto central deixa de ser “o que aconteceu” e passa a ser “como devemos nos posicionar”.
Os ajustes realizados nas carteiras ao longo do mês refletem exatamente esse momento. O regime mudou — com juros em queda, fluxo estrangeiro relevante e valuations ainda descontados —, mas o ambiente também se tornou mais complexo, incorporando novos riscos, especialmente geopolíticos e institucionais. O resultado é um cenário que exige menos posicionamentos extremos e mais sofisticação na construção de portfólio.
Carteiras de Investimento — posicionamento, disciplina e adaptação
Diante desse cenário, os ajustes nas carteiras seguem três princípios fundamentais: manter exposição ao ciclo de taxa de juros elevada, aumentar a seletividade e incorporar proteção.
A combinação entre juros ainda elevados, início de cortes e maior incerteza externa mantem o ambiente complexo. Não é um cenário de alocação puramente defensiva, mas também não é um momento de assumir risco de forma indiscriminada.
Nos perfis conservadores, a estratégia tem sido reduzir gradualmente a dependência de pós-fixados puros, ampliando a exposição a ativos indexados à inflação, como forma de proteger o portfólio diante do novo cenário de energia e preços.
Perfil Conservador: Renda Fixa: Pós-fixado: 75,0%; Pré-fixado: 10,0%; Inflação (IPCA): 15,0%.
Nos perfis moderados, avançamos na alocação em renda variável, mas com maior equilíbrio — combinando exposição ao ciclo doméstico com ativos defensivos e estratégias multimercado.
Perfil Moderado:
Renda Fixa: Pós-fixado: 48,5%; Pré-fixado: 10,0%; Inflação (IPCA): 28,5%.
Multimercados: 2,5%.
Renda Variável: Brasil: 2,5% / Internacional: 5,0%.
Ouro: 2,5%.
Já nos perfis mais agressivos, o posicionamento segue mais direcional, com aumento relevante em ações brasileiras, especialmente aquelas ligadas a commodities e ao ciclo doméstico, incorporando também ativos de proteção como forma de mitigar riscos de cauda.
Perfil Agressivo:
Renda Fixa: Pós-fixado: 21,5%; Pré-fixado: 10,0%; Inflação (IPCA): 31,0%.
Multimercados: 5,0%.
Renda Variável: Brasil: 20,0% / Internacional: 7,5%.
Ouro: 5,0%.
O ponto comum entre todos os perfis é claro: o regime mudou, mas a execução precisa evoluir junto com ele.
Mais do que nunca, o risco não está apenas no cenário — está no comportamento. Em ambiente como o atual, disciplina e consistência continuam a ser diferenciais mais importantes do que tentativas de antecipação de curto prazo.
Cenário Internacional — fluxo, regime e choque geopolítico
Se fevereiro foi marcado pelo movimento, março foi marcado pela leitura desse movimento. O pano de fundo segue sendo a rotação global de capital. Em um ambiente de maior incerteza nos Estados Unidos — seja pela reprecificação de setores ligados à inteligência artificial, seja pelo estágio mais avançado do ciclo econômico — o capital global passou a buscar alternativas. Nesse contexto, mercados emergentes voltaram ao radar, com o Brasil entre os principais beneficiários, sustentado por juros reais elevados, valuation atrativo e melhora gradual das expectativas domésticas.
Ao longo de março, no entanto, esse cenário ganhou um novo elemento relevante. A escalada militar entre EUA/Israel e o Irã, com impacto direto sobre o Estreito de Ormuz, levou o petróleo Brent a operar acima de US$ 100, adicionando uma camada importante de risco inflacionário global. Esse movimento não apenas pressiona preços, como também altera a dinâmica esperada de juros no mundo — e, por consequência, no Brasil, onde novamente estamos diante de uma potencial reedição da greve dos caminhoneiros.
Nesse ambiente, ganha força uma postura mais defensiva no curto prazo, com maior relevância para ativos reais e de proteção — como commodities energéticas, ouro e dólar —, ao mesmo tempo em que setores mais sensíveis a custo e logística tendem a sofrer maior pressão. Ainda assim, o ponto central permanece: o regime global mudou, mas agora convive com um nível mais elevado de volatilidade.
Cenário Nacional — juros, inflação e risco institucional
No Brasil, o cenário segue sendo construtivo, mas com nuances importantes. O Banco Central reduziu a Selic para 14,25% e, mais do que o nível em si, o que chamou atenção foi a mensagem: o ciclo de cortes começou, mas será conduzido com cautela. A autoridade monetária indicou um processo de “calibração”, sinalizando reduções graduais de juros — provavelmente em torno de 0,25 ponto percentual por reunião — enquanto monitora de perto o cenário externo, especialmente os desdobramentos da guerra no Oriente Médio.
A projeção de inflação ao redor de 3,3% no horizonte reforça que existe espaço para cortes. No entanto, o choque recente no petróleo e o aumento das incertezas globais tendem a desacelerar esse processo. Em outras palavras: o Banco Central quer continuar reduzindo juros, mas não está disposto a correr riscos em um ambiente ainda instável.
Esse ponto é central para a construção de portfólio neste momento. Os juros continuam elevados em termos absolutos, o que mantém a renda fixa bastante atrativa, ao mesmo tempo em que abre espaço, ainda que de forma gradual, para ativos de risco.
Além disso, o mês de março traz um vetor adicional de incerteza no campo institucional. O julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF), marcado para o dia 25, coloca em discussão a validade de verbas indenizatórias e pagamentos retroativos para membros do Judiciário e do Ministério Público. O desfecho pode impactar diretamente o planejamento financeiro de uma parcela relevante de investidores, especialmente aqueles ligados às carreiras jurídicas, influenciando decisões de liquidez e alocação ao longo do semestre.
Em paralelo, o sentimento de mercado já se aproxima de níveis mais elevados de otimismo, o que historicamente aumenta a probabilidade de maior volatilidade no curto prazo. Além disso, a alta recente ainda se mostra concentrada em grandes empresas, indicando que o ciclo ainda não se disseminou completamente.
Esse é um ponto importante: o mercado começa a migrar de um ambiente em que “tudo sobe” para um ambiente em que a seleção de ativos se torna ainda mais determinante.
Conclusão — de continuidade para adaptação
Março não é apenas a continuidade de um movimento positivo iniciado no começo do ano. É o início de uma fase mais complexa desse ciclo. Um ambiente em que crescimento, inflação, juros, geopolítica e risco institucional passam a coexistir de forma mais intensa, exigindo portfólios mais equilibrados, resilientes e adaptáveis. Seguimos atentos a esse novo contexto, ajustando as carteiras de forma consistente com os objetivos de cada cliente, sempre com foco em preservação de capital, captura de oportunidades e visão de longo prazo.



